Em Suzano, volta às aulas é marcada pela ausência de transporte escolar

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Governo não consegue encontrar solução ao problema que afeta milhares de estudantes da rede estadual. Fotos: Bruno Arib

 

Por Walmir Barros

 

Terminada as férias escolares se repete o drama de estudantes perambulando pelas estradas. Devido à falta de transporte escolar que deveria ser oferecido pelo governo de Geraldo Alckmin (PSDB), eles ficam numa situação de abandono e à mercê do perigo. A situação, que já se tornou corriqueira no Alto Tietê, dessa vez afeta em torno de 12 mil estudantes da DE (Diretoria de Ensino) de Suzano.

A reportagem comprovou o abandono dos estudantes na manhã desta sexta-feira (11) na Escola Estadual Roberto Bianchi, no Distrito de Palmeiras, em Suzano, trazido nos relatos de vários alunos da unidade educacional.

A caminho da escola, adolescentes se arriscam na movimentada Estrada Índio Tibiriçá

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O estudante João Pedro de Oliveira, 13 anos, que cursa o oitavo ano, disse que em função da falta de transporte escolar tem de acordar mais cedo, às 5h30, para não chegar atrasado.  “Eu quero que essa situação seja resolvida o mais rápido possível”. Ele informou que sua casa fica acerca de cinco quilômetros da escola.

A falta de transporte despertou a consciência solidária do estudante Rafael Rodrigues Santana, 15 anos. Aluno do primeiro ano, ele não é afetado pelo problema porque sua casa fica próxima à escola. Mas, o menino pensa nas dificuldades enfrentas pelos amigos. “Eu moro perto, mas tenho muitos colegas que moram longe e eles têm de andar bastante”, lamentou.

Já aparentando cansaço da “viagem feita a pé” o estudante Giovani Barbosa de Souza, 14, aluno do 9º ano, foi rápido. “Precisamos de ônibus”. Indagado sobre a distância entre sua casa e a escola, ele resumiu. “É muito longe”. Na curta resposta evidenciou o motivo de estar cansado.

 

NA ESTRADA – Ainda no Distrito de Palmeiras, mas na EE Shogiro Segawa, no bairro Jardim Restinga, o estudante Guilherme Moraes Alves, de 15 anos, se livrou da caminhada. “Dei sorte de encontrar o meu avô e peguei uma carona. Estava vindo a pé quando ele apareceu”, falou. “Mas está assim desde o começo da semana”, frisou, fazendo referindo à falta do transporte escolar.

Por falta de transporte, Amarildo Haskel tem deixado os filhos na escola

Por falta de transporte, Amarildo Haskel tem deixado os filhos na escola

Na EE Doutor Anis Fadul, na Vila Real, a situação é idêntica, conforme explicou o autônomo Amarildo Haskel, 49 anos. “Como sou autônomo, a falta de transporte tem me prejudicado bastante. Mesmo assim prefiro trazer meus filhos, pois eles caminhariam por 40 minutos para chegar até a escola”, estimou.

 

De acordo com um funcionário dessa escola, que pediu para não ser identificado, cerca de 50% dos estudantes não estão frequentando as aulas justamente pela ausência de transporte. Na informação, a constatação de que a falta do serviço gera outra falta: a de estudantes nas salas de aula.

 

RESPOSTA – Por meio de nota, a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo se limitou em informar, através da Diretoria Regional de Ensino de Suzano, que o contrato com a empresa responsável pelo transporte escolar acabou no último dia 8 e que um contrato emergencial já está sendo finalizado. A previsão é que o serviço seja normalizado na próxima semana. As aulas perdidas serão repostas.

 

Sindicato diz que Estado persiste no erro ao contratar empresas suspeitas

Foto: Reprodução TV Diário

Foto: Reprodução TV Diário

O sindicalista Alexandre Almeida, que é presidente do SINTTEASP (Sindicato dos Trabalhadores do Transporte Escolar em São Paulo e Região), afirma que essa situação no transporte escolar se arrasta desde 2012. Conforme ele, o problema começou quando o Estado definiu um novo programa de licitação, o que “abriu” espaço para surgimento de irregularidades.

A partir daquele ano Almeida passou a questionar a Secretaria da Educação, cobrando fiscalização sobre as empresas ganhadoras das concorrências. Anos mais tarde – em 2016 – ele denunciou à Justiça um suposto esquema de favorecimento, onde empresas sem condições de prestar o serviço venciam processos licitatórios. “E outras pararam de atuar por causa da forma suspeita como as licitações aconteciam. Isso resultou nas demissões de trabalhadores do transporte escolar e na deterioração do serviço”, disse.

A WMW Locação de Veículos e Serviços de Transportes, que operou o serviço por quase dois anos em Suzano, foi uma das empresas que caiu mediante as denúncias do sindicalista feitas à Justiça. Mesmo apresentando várias irregularidades, vencia licitações.

 

ACIDENTE E MORTE – A preocupação do sindicalista quanto ao serviço de empresas e funcionários despreparados já ocasionou tragédias. A mais recente seria a registrada no dia 2 de agosto, quando um ônibus escolar que trafegava pela rodovia Mogi-Salesópolis colidiu contra um caminhão e resultou na morte do motorista Carlos Pedro Miranda. O ônibus, que era conduzido por Cláudio de Almeida, de 46 anos, levava mais de 40 crianças. Nenhuma delas se feriu, mas ficaram traumatizadas ao ver o corpo da vítima no asfalto. Os alunos disseram que não querem mais ir para a escola de ônibus, conforme reportagem da TV Diário.

Almeida lembrou que o Estado é solidário nas responsabilidades dos contratados, respondendo por todas as obrigações que deixam de ser cumpridas por parte das empresas. “Estamos sempre atentos. Não permitiremos que oportunistas participem de contratações de prestação de serviço em prejuízo dos trabalhadores, cujos direitos foram conquistados após muita luta”, concluiu.

 




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