‘Hoje entendo porque tantas mulheres são mortas’

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Mogiana sobrevive a tentativa de feminicídio, mas é registrada como autora de “agressões recíprocas” na delegacia

 

Por Renan Xavier

 

Quando a atendente Nathalia Galocha dos Santos, de 23 anos, apresentou-se no 1º DP (Distrito Policial) de Mogi das Cruzes, na madrugada do dia 12, achou que o pesadelo que tinha vivido recentemente, enfim, terminaria. Estava enganada. “Depois da dor de um espancamento, vem a humilhação para registrar a queixa”, resume a mulher.

Por todo seu corpo viam-se hematomas e escoriações, cortes na boca e inchaço no olho direito, que estava roxo e mal abria. O responsável pelas marcas de brutalidade, segundo a atendente, fora seu ex-marido, o desempregado Kleber Fernando de Santana, 28, que também cortou parte do cabelo da vítima com um canivete – apreendido pela PM – e tentou estrangulá-la.

Mas para o delegado de plantão Guilherme Cyrino, primeiro a atender a ocorrência, faltaram “elementos probatórios” para manter preso o ex-marido, que foi liberado minutos depois de depor. No boletim de ocorrência, a autoridade policial ainda registrou Nathalia como “autora/vítima” – e não apenas vítima – do que chamou de “agressões recíprocas”. O delegado também não informou que os dois eram legalmente casados, o que atrasou o encaminhamento do caso à DDM (Delegacia de Defesa da Mulher) mogiana.

“Você não tem voz”, desabafou a atendente à reportagem. “Eu dizia ao delegado que meu ex tentou me matar e ele respondia: ‘não, ele também está arranhado’. Eu tive que lutar para sobreviver, é claro que ele ficaria com alguma marca leve. Aquilo para mim foi como outro soco na cara, até mais doloroso. Hoje entendo porque tantas mulheres são mortas”, lamenta.

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Foi necessário que Nathalia voltasse ao 1º DP 11 horas depois do primeiro registro para acrescentar que era legalmente casada com o agressor, embora na prática estivessem separados há dois meses. Só então foi orientada pelo delegado Argentino da Silva Coqueiro sobre os direitos assegurados pela Lei Maria da Penha.

O caso foi então encaminhado à DDM, onde está sendo investigado por meio de inquérito policial. Em nota, a SSP (Secretaria de Segurança Pública de São Paulo) informa que “o ex-marido da vítima foi convocado para prestar depoimento e a autoridade policial aguarda a conclusão do laudo do exame de corpo de delito”. A nota acrescenta ainda que foi solicitada medida protetiva à vítima. No entanto, até a publicação desta matéria, Nathalia ainda não tinha o documento em mãos – e não acredita que ele garantirá sua segurança. “É só um papel”, lamenta.

 

Desabafo em rede social causa comoção

 Foram cerca duas horas de terror na tarde do último dia 11. Após concordar em rever o ex-marido, que insistia em reatar e “salvar o casamento”, a atendente mogiana Nathalia Galocha dos Santos conta que foi brutalmente agredida pelo homem com socos, chutes e tentativa de estrangulamento.

Ela sobreviveu, registrou com uma foto as marcas da violência em seu próprio rosto e publicou em uma rede social. Também escreveu uma mensagem de desabafo e alerta para mulheres em situações semelhantes à sua. A publicação recebeu centenas de comentários e compartilhamentos.

“Expus meu caso para que mulheres não se fechem como eu fiz, não achem que a culpa é delas. É importante se abrir com alguém quando se é agredida. Muitas vezes me convenci de que eu era culpada pelas agressões que sofria. Hoje vejo que fui vítima esse tempo todo”, diz Nathalia.

Depois da publicação, a atendente conta que foi procurada por diversas pessoas que relataram experiências semelhantes. “Algumas dizem que após lerem meu desabafo tomaram coragem para terminar relacionamentos abusivos. Outras dizem que viveram esse drama e superaram. Isso renovou minha esperança”, diz.

No entanto, a mulher ainda sofre as consequências do trauma e sente medo de uma vingança do ex-marido. “Ele parece ter certeza da impunidade, não teme nada. Já eu, não consigo mais comer, não saio na rua, perdi meu emprego. Só espero que ele seja cobrado e eu tenha paz novamente, porque hoje eu tenho medo de viver”, diz.

 

22016565_1408605729258216_559202499_nLeia na íntegra o depoimento da vítima publicado no Facebook:

 O Amor às vezes nos faz pensar que tudo pode ser transformado, que o mundo é lindo e que as pessoas mudam. Eu acreditei e não julgo quem também acredita, pois o problema não é o amor e sim as pessoas!

Já estávamos separados por ele ser assim e não ter mais respeito na relação, mas dei espaço e acreditei na mudança dele para “salvar nosso casamento”, como ele dizia.

Tive que me expor como última esperança de que algo seja feito e servir de alerta para que mais nenhuma mulher aceite e passe por isso, tive que me expor em um estado em que jamais imaginei ficar e que não desejo a ninguém, mas acredito na justiça de Deus e sei que ela não falha, pode tardar, mas chegará!

Eu também pensava que comigo nunca aconteceria, que ele me amava e nunca faria isso comigo e passei por uma situação horrível onde tive que lutar pela minha vida. Casos assim acontecem todos os dias, muitas acreditam na mudança, muitas sofrem caladas e muitas morrem! Começa com agressões verbais, depois vem as físicas até chegar ao homicídio!

Mulher nenhuma merece isso, não aceite xingamentos porque esse é o início e o fim pode ser trágico! Eu sobrevivi, mas nem todas sobrevivem a Lobos em pele de cordeiro!

 

#ParaQueOutrasTenhamCoragem #ParaQueTodasSeMobilizem

#ParaQueNenhumaOutraPassePorIsso

 

(Foto: Começo e final do dia 11/09/2017)




One thought on “‘Hoje entendo porque tantas mulheres são mortas’

  1. Mizael Do Amaral Valadao Marques

    Eu confirmo que hoje embora estamos em tempo moderno, mais estamos com leis e autoridades como se fosse nos tempos dos coroneis. Aconteceu em minha familia. Não irei cruzar os braços

    Reply

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